Falou, falou, falou
De que falou ele?
E como falou o seu corpo?
Onde estava a emoção?
(de quando em vez, como uma pontuação,
a mão sacudia com displicente precisão (?)
a manga do seu belo casaco limpo)
Como expulsou cada palavra
e respirou o que disse?
O que disse e não disse a sua fala?
O que calou?
Para quem falou?
Quem representava eu, quando ele disse o que disse,
não dizendo o que falou,
não falando o que disse?
O que imaginou ser o efeito das suas palavras?
E que efeito produziu em si tudo o que disse,
tudo o que não disse?
a si mesmo
e a mim.
©Isabel Botelho